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Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais-IEPHA

ENTREVISTA: Inquietação Permanente

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Professor de História e Teoria da Arquitetura, do Urbanismo e da Arte, na Escola de Arquitetura da UFMG, Carlos Antônio Leite Brandão, Cacá Brandão, transita com desenvoltura pelas áreas em que se especializou e também pelas atividades artísticas. Membro do Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep) e diretor do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares da UFMG, nesta entrevista Cacá fala de sua relação com o patrimônio e de sua inquietude que o faz transitar por vários campos.



Qual sua relação com a questão do patrimônio e de que forma ela ganhou espaço de destaque em sua trajetória profissional?
A relação com o patrimônio se originou por várias razões, das quais destaco três. 1) A condição de cidadão e membro de uma comunidade com a qual tento me relacionar para compreender-me a mim e a ela, para conhecer sua tradição e o que dela me foi transmitido, de modo a que eu possa melhor servir à tradição futura que os de nosso tempo estão sempre a fundar. 2) Ter-me dedicado ao estudo da história da arquitetura e de nossa complexa relação com o tempo, que se expressa, entre outras coisas, através do espaço. Estudar o patrimônio é uma forma de problematizar o presente e acessar ao lugar em que primeiro habitamos: a história. Antes de habitarmos o espaço, habitamos o tempo. 3) Nosso presente está inflacionado de informações, imagens e mudanças muito rápidas. Contudo só percebemos o que passa diante daquilo que permanece, e vice-versa. Estudar o patrimônio, ser membro de vários conselhos que a ele se dedicam e realizar pesquisas e trabalhos são formas de manter a dialética frente a esta época de grandes e rápidas mudanças, de contrapor-se a ela e não nos afogar em seus fogos-fátuos. Pensar o patrimônio é simétrico a prospectar o futuro. Sempre que caminhamos para o futuro, caminhamos simultaneamente em direção ao passado e às origens. E vice-versa.

Como o senhor vê a criação do Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep)?
Sinto-me honrado por participar do Conep desde a sua fundação. Precisamos definir melhor o seu campo de atuação e os objetos a ele submetidos, de modo que seu trabalho não se confunda com o dos conselhos municipais, do Iepha e outros órgãos de preservação. Temos um pouco esta multiplicação de instâncias por várias razões. Um dos maiores problemas que vejo hoje é termos fetichizado a noção de patrimônio, estarmos inseguros quanto ao que deve ou não ser preservado. Esta insegurança nos leva à multiplicação de fóruns que muito oneram e pouco acrescentam. Não podemos engessar a história e nem transferir para alguns especialistas um poder de decisão que exclui outros pontos de vista e outros fatores constituintes da vitalidade da cidade e seu espaço. Em nome do patrimônio temos assistido desenvolver-se uma reserva de mercado e um monopólio do discurso para alguns cujos argumentos são usados para calar todos os outros. O patrimônio é um dos fatores fundamentais para a constituição da identidade, da memória e da vida coletiva própria a uma cidade. A cidade é o lugar desta memória e do diálogo entre vários pontos de vista, do encontro com o outro e com o diferente, com uma tradição que se funda e não apenas com a tradição recebida.

Verifico que, mesmo que os conselhos se multipliquem, seus personagens quase sempre permanecem os mesmos e as mentalidades também. Seria preciso que eles fossem locais de diálogo, não se limitassem à esgrima entre posições pré-definidas e que jamais se deixam alterar pelas razões expostas nos debates. Se um conselho não for o lugar da construção da razão, em processo, será que ele tem razão de existir?  Isto é algo que não se refere ao Conep, e sim a outras instâncias de nossa sociedade, cada vez mais incapaz de dialogar. Temo, enfim, que a multiplicação de conselhos do patrimônio acabe excluindo outros fóruns, atores e espaços onde o patrimônio é discutido pelos cidadãos. A identidade da cidade não se limita ao “patrimônio”, ela se constrói dia a dia, como a nossa e as nossas lembranças. Aquilo que não é patrimônio talvez seja até mais importante para a vida da cidade e, inclusive, para a definição de seus espaços privados e públicos. Qual é o fórum em que ele é debatido? Onde e como o patrimônio cultural debate com a cultura que não é apenas patrimonial? Será que não era hora de também pensarmos num Conselho da Invenção Cultural?

O que mais importa seria constituir uma pedagogia do interesse público contra o interesse privado das corporações, seja a das construtoras e comerciantes, seja a dos arquitetos, historiadores e advogados. Sem a interação contributiva dos vários pontos de vista, não há como constituir-se uma razão pública que vá além da acomodação dos interesses privados. Tudo virou dinheiro e oportunidade de negócios e negocinhos, seja a Serra do Moeda e a Serra do Rola-Moça, seja a Praça Sete. Quando trata-se de conjuntos como estas serras, que envolvem vários municípios e regiões, aí sim, eu vejo uma oportunidade de ação bem delimitada para o Conep, junto com outros órgãos inter e supramunicipais, como a UFMG e o Iepha. Além disso, o Conep poderia apontar para aquilo que tem relevância para o Estado ou para a Nação, e que ultrapassa a repercussão municipal, por exemplo, Cataguases ou o artesanato do Jequitinhonha.

Como o senhor avalia o panorama atual da preservação do patrimônio cultural?
Muitas coisas boas têm acontecido, como vemos no centro de Belo Horizonte e em outros lugares. Sem os conselhos e o trabalho dedicado de muitos, talvez já tivesse a Serra da Moeda seguido inteiramente o caminho esburacado da Serra do Curral. O trabalho do Conselho Deliberativo do Patrimônio Histórico e Cultural do Município, por exemplo, é precioso e fundamental para a nossa cidade. Sem ele, não teríamos a nova Rua Caetés, a preservação de vários edifícios e lugares, de várias épocas. Creio que avançamos muito e isto se deve em parte à ação dos conselhos. É fundamental acrescentar-se a isso, o trabalho desenvolvido pelo Iepha, que deve ser sempre valorizado, bem como seus profissionais e técnicos. Contudo, como dito acima, temo duas coisas: 1) a transformação do patrimônio em fetiche e a sua consequente esteticização; 2) a privatização do patrimônio, ou seja, entendê-lo apenas como coisa afeta a especialistas e profissionais que dele se servem para estabelecer uma reserva de mercado e um discurso monolítico de poder, que exclui todos os outros. Nada me convence de que nossa autoridade é maior do que aquela depositada por um cidadão provido de razão pública. Pois muitas vezes é esta razão que falta ao próprio especialista sobre o patrimônio. Ou seja, temo a dissociação entre patrimônio cultural e a cultura propriamente dita, com sua dinâmica, suas rearticulações e recombinações, inclusive do passado com o presente e com o futuro, cujo diálogo deve ser traduzido pelo espaço físico da cidade. Apesar de todos os avanços e contribuições dadas pelos estudos e trabalho feito sobre o patrimônio, em particular em Minas Gerais e em Belo Horizonte nos últimos anos, creio que é hora de recusarmos fortemente a idéia de que o patrimônio histórico e cultural é um fim em si mesmo. Ele é um instrumento, dentre vários, para a construção de uma razão pública e para a constituição de uma vida melhor. Ele deve servir para conservar nossas cidades, nossa memória e nosso meio-ambiente, sem congelar-nos a uma única dimensão da vida. Enfim, é preciso que saibamos contextualizar nossas questões sobre o patrimônio, e não apenas repetir as generalidades que se esboçam nas cartas de patrimônio. Precisamos traduzi-las para o nosso contexto, onde os recursos são poucos e as centralidades espaciais são pouco constituídas. É por isso que defendo o Circuito Cultural Praça da Liberdade. Mas talvez nada fosse mais importante, em nossas atuais discussões sobre o patrimônio da cidade, do que recuperar a antiga Praça dos Correios e a expressividade do Ed. Sulacap, o mais bonito edifício da cidade. O patrimônio deve lidar sempre, com a idéia de destruição também. Precisamos destruir aquele conjunto terrível de lojas que emudece o Sulacap, junto da Av. Afonso Pena. Precisamos de metrô para que a cidade não se sufoque. Precisamos de vazio e silêncio para que a música da cidade volte a acontecer. Produzir este vazio deve ser agenda dos que pensam o patrimônio cultural e arquitetônico, de modo a evitar as mordaças da mídia, do acúmulo de informações, da democracia de massa e de conjuntos como aqueles na frente do Sulacap, no Belvedere atual, no Buritis e outros lugares.

O senhor constantemente busca estabelecer conexões entre a Arquitetura e o Urbanismo com outras artes e ciências. Como entender este diálogo?
Acho que toda investigação intelectual específica acaba encontrando desafios e limites que a obriga a entrar em contato com outros campos que podem ajudá-la a superá-los. Existe uma interdisciplinaridade de superfície, aquela do “pesquisador generalista” que camufla sua incompetência travestindo-se com discursos de outras áreas. Isso é muito comum, por exemplo, quando substituímos o discurso propriamente urbanístico por aqueles oriundos da sociologia, da economia, da estatística e outras áreas. Tais discursos outros, contudo, não resolvem o problema afeto ao nosso ofício, que é o projeto, a prospecção e a construção de novos espaços. Por isso, enquanto os discursos sobre patrimônio se sofisticam, os projetos se banalizam, como vimos na reforma feita na Praça Sete há uns dez anos, na ocupação do Belvedere e em grande parte dos formalismos pós-modernistasdos anos 80, que beiraram o cinismo.

Mas existe, também, uma transdisciplinaridade profunda, que só pode ser empreendida por quem domina uma especialidade ao ponto de nela ver as fissuras e porosidades que a obrigam a entrar em contato com outras áreas para resolver seus problemas. Os problemas complexos do século XXI – da cidade, do meio ambiente, da energia, do transporte, do gerenciamento da informação, dos vários tipos de rede, da violência, da nutrição, das relações culturais, das epidemias, desastres e economias globalizadas etc. – não admitem uma solução unidimensional e fácil. Eles repercutem em várias áreas, exigem respostas complexas, inéditas e rápidas e entrelaçamento de várias perspectivas e discursos. O problema do patrimônio também exige esta leveza e esta horizontalidade para fazermos comunicar conhecimentos e discursos dispersos. Acho que é este o meu fascínio com o Renascimento, com Alberti e Leonardo da Vinci. Acho que eles representam a pré-história da transdisciplinaridade e cumpre revisitá-los, para sermos capazes de enfrentar os desafios e o novo ser humano do século XXI. Além disso, trafegar entre várias áreas é algo próprio de uma inquietude pessoal muito grande, muito ansiosa e nada confortável. Mas é a maneira com que me constituí. Talvez valha aí a frase de Paul Valéry: “nascemos muitos, mas morremos um só”. Transitar entre vários campos talvez seja a forma que tenho de tentar permanecer múltiplo e de não me reduzir apenas a uma dimensão da vida ou ao meu emprego na Academia. Paga-se um preço alto por isto, a começar pela inquietude e incompreensão permanente. Às vezes, se perde a noção do real. Mas será que esta noção já não há perdemos, há muito?

FOTO: Acervo Pessoal

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